Exposição de Helena Canotilho a inaugurar no dia 8 de Abril, na Galeria Vieira Portuense, Largo dos Lóios, 49/50, 4050-338 Porto. Patente até a 6 de Maio de 2017.
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
sábado, 24 de outubro de 2015
"Esoterismo na pintura de Helena Canotilho" pelo Professor Doutor António A. Pinelo Tiza
Esoterismo na pintura
de Helena Canotilho
Retratar linearmente o real não deve
ser arte. Será por isso que Helena Canotilho nos retrata os elementos do
universo de uma forma tão elaborada, complexa. Ao fazê-los interagir na tela,
de uma forma tão sábia, confere a cada obra um carácter simbólico cuja leitura
exige uma atenção redobrada para a sua compreensão. Isto porque os elementos
formam conjuntos coerentes para que transmitam uma ideia, um sentimento, um
ritual.Deteta-se na obra um trabalho criterioso, orientado pela sabedoria
alcançada em resultado do desbaste da pedra bruta, pela força interior do
entendimento que tudo vence e pela beleza da harmonia dos elementos nela
conjugados.
Cada obra carrega em si um sentido
para a existência da artista, através da simbologia esotérica; tal desiderato
só foi possível, a meu ver, pela imersão na profundidade da essência intrínseca
dessesobjetos, quer seja a de cada um per
si, quer pela interação que entre eles faz ela estabelecer. Estamos, pois,
a tratar da dimensão transcendental – a teleologia da arte.
Helena Canotilho logrou alcançar a
simbologia plena por um trabalho criterioso de seleção e pela expressão
harmoniosa dos elementos nos seus diversificados conjuntos, sendo que cada um
deles está vinculado a uma vivência sua, em particular. Contudo, nunca perde de
vista a ortodoxia que a inspirou, simplesmente porque nela o dogmatismo não tem
lugar. Assim, a obra torna-se um convite à descoberta de outros símbolos que,
por sua vez, nos conduzem ao conhecimento da complexidade do ser humano e do
universo a que pertence.
Se nos fixarmos no conjunto da obra,
talvez possamos ver nela espelhado um rito: cada tela apresenta um conjunto de
símbolos que se repetem e se conjugam e todas as telas interagem para a
teleologia do conhecimento de si mesmo, da harmonia com o outro e da perfeição
interior.
O olho que tudo vê do delta luminoso
é (quase) o único elemento humano deste conjunto de obras de arte. Aliás, é um
ícone recorrente. Contudo, todos eles (incluindo este) representam os
caracteres mais elevados e sublimes da condição humana; verbi gratia, a vida, a paz, a solidariedade, a renovação
permanente e a fecundidade expressas nos grãos unidos da romã; as ferramentas
dos pilares da construção humana (compasso, esquadro, pêndulo…), segundo os
seus valores e direitos primordiais: a ética e a moral, a justiça, a retidão, a
fraternidade; a complementaridade e o equilíbrio do triângulo.
Acima de tudo, Helena Canotilho
construiu a obra de arte esotérica da pessoa humana: bela, boa, justa e
perfeita.
Historiador e crítico de arte
Presidente da Academia Ibérica da
Máscara
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
4. Olho
2007/ Óleo s/tela/ 40x30cm
2.000,00€
OLHO
Vejo pouco
Tão pouco
Uma película
A superfície
Pouco me diz
Talvez nada
De ti
De quem és
Aparências!
Entre mim e ti
Muitas barreiras
Esforço-me e luto
Para removê-las
Em vão
Desespero
Apenas desperto
O desejo escondido
De saber
De ver o que está por detrás
Dessa camada
Que me separa…
De ti
Digo que vejo
E não vejo
Dizes que vês
E não vês
Humanidade…
Apenas sonha
Que vê
Mas…
Não vê
Helena Canotilho 2014
13. Unicidade
Óleo s/tela/ 80x30cm
3.000,00€
3.000,00€
UNICIDADE
Sou eu e és tu
Depois eu
Depois tu
Até ao final dos tempos
Outra vez eu
Outra vez tu
Eu e tu
Apenas Um
No cume do pêndulo
Baloiçando…
Indo e voltando
Estamos nós
Viajando de lá pra cá
De cá par lá
Sempre cá
Sempre lá
Eternamente
Apenas um!
Helena Canotilho 2014
14. Viver
Óleo s/tela/ 80x30cm
3.000,00€
VIVER
Alguém te dirá…
Que morri
Mas… não morri
Sempre estive
Estou
Estarei aqui!
Ver-me-ás
Quando “Olhares”
Aqui!
Vejo o brilho dos teus olhos
Vejo o reflexo dos meus…
Nos teus.
Dialogamos
Sem palavras
Porque as palavras
Não sabem…
Não sabem dizer
O que eu sinto
O que tu sentes
Só eu, só tu
Sabemos…
Estou aqui…
No silêncio
Noite e dia
Sempre a dizer
Escutando
Sentindo
Amando
Sempre a nascer!
Sempre a morrer!
Helena
Canotilho 2014
15 . A Espada
Óleo s/tela/ 80x30cm
3.000,00€
A ESPADA
A minha espada
Corta
Separa
Trespassa e
Despedaça
Mas...
Não mata!
Sirvo-me dela
E não eu a ela
A minha espada
É bela!
Reflete o sol
Reflete a lua
Nela...
Vêem-se as estrelas
E também
Eu!
Com ela
Parto em aventuras
Floresta dentro
Consciente
Olhar atento
Despedaço fantasmas
Derrubo barreiras!
Abro as portas
Dentro de mim
Fora de mim
Não há bem
Não há mal
A minha espada
Forjada em amor
Em harmonia
Tudo une
Tudo agrega
Nivela
Não há dor
Há esplendor
Helena Canotilho 2014
16. Libertação
Óleo s/tela/ 80x30cm
3.000,00€
LIBERTAÇÃO
O Alma...
Minha glória
Minha luz
Que me elevas!
Ó Mente...
Meu pensar
Que me enganas
Que me trais!
E tu?
Ó Corpo...
Que te arrastas
Que te esforças
Serves a alma
Serves a mente
Aqui estás
Aqui estou eu
Dentro de ti
Por pouco tempo
Sofro contigo
Mas...
Também me alegro
Quando a Mente
Não se opõe
Á Alma sábia...
Em sintonia
Em harmonia
Dão-te valor
D ao-te amor
E energia
Tão poucas são
Essas vezes
Tão efémeras
Tão fugazes
Sofro contigo
Agora
Meu corpo
Preso
Espetado
Sangue derramado
Gasto
Sacrificado
Experienciaste
Cumpriste
E...
Estás liberto!
Agora
SOU!
Helena Canotilho 2014
17. Ser
Óleo s/tela/ 80x30cm
3.000,00€
SER
Eu sou
O Ser que sabe
Ser uma parcela
Uma poeira
No Infinito
Na Existência
Eu existo
Além
Sou o saber
Aqui
A experiência
Por isso vou
Por isso venho
Um corpo uso
Depois descarto
Outro corpo
A mesma vida
Vou sendo...
Cada vez maior
Cada vez menor
Assim é
O infinito
Assim sou eu
Uma parcela
Uma poeira
No Infinito
Na Existência
Helena Canotilho 2014
terça-feira, 13 de outubro de 2015
Crítica de arte por João Manuel Neto Jacob
Gente com alma e história
Helena Canotilho surpreende-nos hoje com duas realidades que, aparentemente, se antagonizam. Cinco das obras expostas são de cariz marcadamente abstracto, ainda que com referências ao real através de texturas e elementos geometrizados que definem a estrutura volumétrica do quadro e reforçam a sua espacialidade, remetendo a obra para uma contemporaneidade pictórica de vanguarda. De cromatismo contido por paleta suave, à excepção de uma das obras, conseguiu-se uma harmonia e calma positividade suspensa em tridimensionalidade espacial geometrizada, com acentuação do dinamismo pelo conjunto das obras da mesma temática apresentadas.
Por outro lado, das restantes dez obras, oito remetem-nos para uma contemporaneidade arcaica, de rusticidade camponesa dominante, em que as histórias de vida se revelam nos rostos, nas mãos e nos trajes dos retratados, sendo os contextos culturais e míticos, de realismo onírico acentuado alguns deles, definidos por tarefas e funcionalidades de objectos ligados ao mundo rural.
Curiosamente, estas personagens, transformadas em arquétipos pela arte e técnica de Helena Canotilho, carregam uma ruralidade positiva, de encanto assumido, em que os modelos expõem e abrem a alma, remetendo-nos para um mundo mítico onde reina a harmonia e a empatia e a conflitualidade não desponta. É gente feliz, com alma e história.
Os outros dois retratos são de contexto urbano. Aqui, os retratados a corpo inteiro estão caracterizados pela solidão e isolamento, vítimas de um mundo que já desistiram de compreender: o pedinte suporta o peso da miséria e da pobreza partilhadas em magro alimento com o rafeiro amigo, único depositário da afectividade possível; o velho reformado ensimesmou-se no vazio do banco e do mundo, sem esperança nem motivação, em desconsolado e final torpor acentuado pela aridez da paisagem e pela paleta utilizada e, ainda, pelo peso dantesco das três colombinas figuras, de escala invertida à maneira de Bosch, que (o) esperam.
João Manuel Neto Jacob
Crítico de arte
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